Minhas metáforas se tornam mais densas.
É como estar aos poucos concretizando
meus vazios comunicantes.
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Genesis 3:19
Haveria de ter, em mim, o que ao menos refreasse a poeira que me torno?
Soube, outrora, tudo que seria dizer-te, mas as palavras sedimentaram em meu peito, grudadas ali como [as miríades, as eras venenosas dali não saem.
Antes fossem nós na garganta, desatáveis pela fumaça do cigarro. Antes fossem nós
nós dois, nós mesmo, nós moscados.
Sirvo-me ao fim do molho, como toque de especiaria - serias meu corpo indispensável? Indivisível?
À ferro e fogo marco o sangue, órgão meu mais sólido, que daqui se eriça cada vez [que teus lábios finos tocam meu pescoço
Meu olhos, botões pregados no pano, nada ferem daquilo que não vêem,
as lágrimas, bijuterias nascidas dos diamantes pêlos d'alma
na alva manhã refletem teus olhos de anjo.
quando vens?
quando fostes?
Nada.
Nada no perfume que exalam as narinas
da fonte
seja a folha,
do licor
seja pó
do licor
seja pó
quando sedes,
seja amante,
se deitar-te
se deitar-te
sede a sós.
Muito é pouco para tanto corpo
e opus do solstício
é ir tornar-me
pó.
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Musgo
O caminhar sôfrego não refletia seu estado de espírito. Estava bem. Assim como o suave dispensar do sentido não era indício do seu mal-estar: estava angustiado. Era impressionante poder ver o musgo crescendo nas cascas das árvores e até num pedaço de chão. Tocar o aveludado fungo verde era como fazer carinho numa fera - talvez o musgo crescesse em si mesmo, talvez ele fosse um musgo apenas esperando para eclodir como tal. Mas seu olhar apaixonado ao tapete verde natural persistia diante das incertezas da sua própria matéria.
O vento farfalhava em seu ouvido, lento, o frio acariciava o seu rosto e lhe fazia pensar naqueles bons momentos de candura junto dela. A marcha o levava adiante, sabendo que ia de encontro ao seu passado, qualquer dia desses. Por que a textura das coisas o fascinava tanto? Era sempre assim, estar parado nalgum canto era seguido de um constante investigar de corpos - qual era a sensação da parede, qual era a sensação da calça, qual era a sensação das plantas.
O grande problema era que ele nunca havia sentido a textura da fumaça - céus, como aquilo o indignava. Já havia tocado muita coisa, de mulheres à flores, de bichos à torres. Mas a maldita fumaça, diabo, essa sempre escapava. Ele sabia que tocar as coisas era estar vivo - afinal de contas: sinto, logo existo. A fumaça era sua morte.
Como quem precisa toda hora se lembrar de que está vivo, ele se apaixonou por aquilo que lhe dizia: morte. O que ele queria mesmo era ir com a fumaça, virar pó.
Olhou ao seu redor, sentiu vontade de espirrar.
Sentiu vontade.
É.
Estava vivo.
Sobre domingo à noite
Acho o máximo esses escritores de filme. Tantas idéias, sobre tantos assuntos. Depois ali de umas doses e uns cigarros e eles estão funcionando a pleno vapor, na calada da noite, descobrindo o sentido oculto da vida até aquele ponto final. Quem diabos escreve?
Lá estava eu, no parque, tomando uma cerveja e fumando um cigarro, no meio de algumas risadas e boa música. Ao primeiro sinal da escuridão, surge a criatura. Um tipo de seus 30 e poucos anos, sozinho, tomando cerveja no canudinho e infiltrando as rodas. As folhas que seus pés pisavam quebravam mais alto, ele se fazia notar, claro. Recitou um poema de merda, à pedido e autorização de ninguém - todos queriam continuar rindo, o cara estava ferrando todos os esquemas. Convenci ele a recitar o mesmo poema sobre o cemitério das pessoas que ele tanto amou para uma loira com um bambolê, mas ele deveria fazer rebolando. O cara realmente foi e então pude voltar às minhas risadas e à minha cerveja.
Não sei bem qual foi o sentido vital que quiseram me passar ali, mas não podia reclamar muito, a vida estava boa. O homem retorna, ainda em seus 30 e poucos anos, fiquei surpreso de que não tivesse envelhecido tanto assim. Perguntou sobre meus poemas, fiz questão de dizer que nunca tinha escrito nenhum poema, é tudo uma grande mentira suja. Ele ficou puto comigo por que eu não recitei nenhum dos meus poemas, ele arrancou a cerveja da minha mão e colocou na sua lata, tomando com o canudinho o suor do meu trabalho. Me disseram depois que ele queria uma batalha de poemas, algo como a versão candanga de 8 mile, o novo rap hipster da capital.
Uma hora ele foi de vez, mas ainda podia vê-lo querendo voltar aos poucos. Fiquei assustado com a possibilidade de ter que ouvir mais um de seus terríveis poemas ou mais uma história da mina que o deixou por que ele era boêmio demais para se dar conta.
Quase uma semana se passou e eu quase sangrei para conseguir escrever esses porcos parágrafos, por que na verdade eu mal tenho opinião sobre os assuntos importantes, imagina então sobre minha vida estapafúrdia... Só depois de noites em claro, medo de ser assassinado e quase um dia inteiro a base de Jazz que saem algumas linhas.
Mas em um ponto ele estava certo, ele só surgiu depois que o sol se foi. O papel do escritor é preto como a noite, folhas em branco não fazem contraste de dia. A não ser em dias cinzentos...
quarta-feira, 14 de maio de 2014
terça-feira, 13 de maio de 2014
Cartão de Embarque
Os dentes da fera
voaram
com a ajuda dos
dedos
voaram
com a ajuda dos
dedos
Mal se tocaram
seguiu-se
seguiu-se
viajem.
Clandestino
próprio
próprio
domingo, 27 de abril de 2014
O Rochedo e o Mar
Estava ali, o Rochedo. Sua firmeza tempestuosa era inabalável perante o Mar. O céu turvo marcava a batalha, em seu campo não havia descanso. Arwen estava lá, suntuosa e magnífica. Que mulher, que pecado. Não havia nada no mundo que não a quisesse, era simplesmente o puro olhar do desejo. Seu corpo branco se marcava contra a rocha cinza, enquanto ela suavemente olhava para o horizonte, cabelo revoando aos ventos. Entre as potências, entre o mar e a rocha, ela era a única vitória possível. Perto do seu rosto impetuoso, seu nariz fino e seus lábios macios, só encontrava-se as marcas do divino, como aquela de nascença no alto de sua perna direita, por trás.
Irresistível.
Contudo, ele era um rapaz acabrunhado, não sabia que direção seguir. Ele estava lá, ao seu lado, mas não sabia quem era ela, nem nada sobre seus poderes místicos de arrancar a vida de um homem e tornar-se toda ela. Seus cabelos negros confundiam-se com o vento e a pedra, nenhum deles tomava posse, e seu corpo (estaria ela nua ou não?) era a própria espuma do oceano, nas ondas incessantes que digladiavam com o rochedo impenetrável. Na sua inocência havia sabedoria, pois não conseguia fixar o olhar nela, e mesmo com suas calças dobradas no meio das canelas e sua blusa brevemente molhada, de mangas arregaçadas e colete enraivecido pelos ares, era ele quem estava nu. Ele queria saber onde a espuma a tocava, ou por que seus olhos claros eram tão parecidos com o barulho das manhãs.
Irresistível.
Era um garoto ainda, nunca havia sentido o calor de uma mulher antes, ainda mais de uma daquelas, esfíngicas e belas. Havia crescido no interior da cidade grande, com muito medo do mundo externo para ter coragem de olhar pra além do seu próprio umbigo, cicatriz eterna do seu medo. Uma mulher que mal ele conseguia pronunciar o nome era Estrangeiro demais para seu coração frágil, cria do escuro de muitas noites sozinho olhando em vão para o teto, em busca de estrelas que nunca o alcançariam. Seu peito arfava, um leão gritava dentro dele, mas ele não conseguia olhar para ela.
Irreversível.
Por que ela não se movia, por que ela não fazia sequer um movimento? A quem os olhasse, pensariam que ela mal sabia da existência do garoto, ou que ele era somente um fantasma diante de tanta vida. Pois era isso que era Arwen, viva. E ainda imóvel, ela pulsava mais que mil fábricas e sua presença tremia mais que a marcha de 100 legiões romanas partindo para o combate contra os bárbaros. O garoto morto ao seu lado não parava de se mexer. Suas mãos se estenderam e pegaram umas conchas partidas pela discussão do mar com as rochas. Voltou a imaginar a água do mar batendo nos pelos daquela mulher.
Irresistível.
Fechou os olhos e apertou as conchas contra sua mão, a dor e as feridas pareciam trazê-lo de volta, de lugar algum para lugar nenhum. Sentiu raiva, sentiu o ímpeto de jogar as conchas longe, queria matá-las. Mas talvez nunca mais as fosse ver novamente, como poderia perdê-las, suas mínimas posses num mundo tão raivoso? Colocou-as nos bolsos, mas agora algo havia acontecido a ele. Resolveu olhar para o outro lado e correr o risco de enfrentar o olhar da musa. Olhou-a. Ela não virou, parecia hipnotizada pelo horizonte, não importava.
Inacessível.
Ele olhou-a bem, seu corpo, suas pernas, seus seios gentis, seus cabelos pretos, sua rocha, sua espuma, suas manhãs. Sentiu raiva de tudo isso, amaldiçoou-os. De repente se viu em pé, gritando com a moça impassível, era ela a culpada de toda sua amargura! Nem os céus, nem os infernos, nem ele deveriam suportam tamanho despautério! Para ele, ela devia ser tragada pelo mar, onde somente os corais pudessem sofrer com sua presença. Mas ela continuava lá, deitada, nua, mitologicamente linda.
Impassível.
Não sentiu mais raiva. Ele a amava. Não podia fazer nada quanto a isso, era todo amor. Beijou seus pés, chorou com suas mãos nas dela, encostou-se em seus seios despidos e pediu perdão, um perdão eterno da criança que peca. Ela nada fez. Era isso. Não havia mais saída, o único caminho era a morte, se jogaria no mar e lá, no pó do oceano, ele se livraria dela. Mas sabia que estava enganado, ela era absoluta. Arwen era o infinito. Não sabia mais o que fazer, haveria alguma saída para seu sofrimento?
Impossível.
Desesperado, jogou-se novamente nas pedras, e de lá resolveu nascer de novo. "Olá", ele disse, "você está aí?". "Enfim", ela respondeu ao virar a cabeça e encará-lo, "Enfim estou".
Irresistível.
Contudo, ele era um rapaz acabrunhado, não sabia que direção seguir. Ele estava lá, ao seu lado, mas não sabia quem era ela, nem nada sobre seus poderes místicos de arrancar a vida de um homem e tornar-se toda ela. Seus cabelos negros confundiam-se com o vento e a pedra, nenhum deles tomava posse, e seu corpo (estaria ela nua ou não?) era a própria espuma do oceano, nas ondas incessantes que digladiavam com o rochedo impenetrável. Na sua inocência havia sabedoria, pois não conseguia fixar o olhar nela, e mesmo com suas calças dobradas no meio das canelas e sua blusa brevemente molhada, de mangas arregaçadas e colete enraivecido pelos ares, era ele quem estava nu. Ele queria saber onde a espuma a tocava, ou por que seus olhos claros eram tão parecidos com o barulho das manhãs.
Irresistível.
Era um garoto ainda, nunca havia sentido o calor de uma mulher antes, ainda mais de uma daquelas, esfíngicas e belas. Havia crescido no interior da cidade grande, com muito medo do mundo externo para ter coragem de olhar pra além do seu próprio umbigo, cicatriz eterna do seu medo. Uma mulher que mal ele conseguia pronunciar o nome era Estrangeiro demais para seu coração frágil, cria do escuro de muitas noites sozinho olhando em vão para o teto, em busca de estrelas que nunca o alcançariam. Seu peito arfava, um leão gritava dentro dele, mas ele não conseguia olhar para ela.
Irreversível.
Por que ela não se movia, por que ela não fazia sequer um movimento? A quem os olhasse, pensariam que ela mal sabia da existência do garoto, ou que ele era somente um fantasma diante de tanta vida. Pois era isso que era Arwen, viva. E ainda imóvel, ela pulsava mais que mil fábricas e sua presença tremia mais que a marcha de 100 legiões romanas partindo para o combate contra os bárbaros. O garoto morto ao seu lado não parava de se mexer. Suas mãos se estenderam e pegaram umas conchas partidas pela discussão do mar com as rochas. Voltou a imaginar a água do mar batendo nos pelos daquela mulher.
Irresistível.
Fechou os olhos e apertou as conchas contra sua mão, a dor e as feridas pareciam trazê-lo de volta, de lugar algum para lugar nenhum. Sentiu raiva, sentiu o ímpeto de jogar as conchas longe, queria matá-las. Mas talvez nunca mais as fosse ver novamente, como poderia perdê-las, suas mínimas posses num mundo tão raivoso? Colocou-as nos bolsos, mas agora algo havia acontecido a ele. Resolveu olhar para o outro lado e correr o risco de enfrentar o olhar da musa. Olhou-a. Ela não virou, parecia hipnotizada pelo horizonte, não importava.
Inacessível.
Ele olhou-a bem, seu corpo, suas pernas, seus seios gentis, seus cabelos pretos, sua rocha, sua espuma, suas manhãs. Sentiu raiva de tudo isso, amaldiçoou-os. De repente se viu em pé, gritando com a moça impassível, era ela a culpada de toda sua amargura! Nem os céus, nem os infernos, nem ele deveriam suportam tamanho despautério! Para ele, ela devia ser tragada pelo mar, onde somente os corais pudessem sofrer com sua presença. Mas ela continuava lá, deitada, nua, mitologicamente linda.
Impassível.
Não sentiu mais raiva. Ele a amava. Não podia fazer nada quanto a isso, era todo amor. Beijou seus pés, chorou com suas mãos nas dela, encostou-se em seus seios despidos e pediu perdão, um perdão eterno da criança que peca. Ela nada fez. Era isso. Não havia mais saída, o único caminho era a morte, se jogaria no mar e lá, no pó do oceano, ele se livraria dela. Mas sabia que estava enganado, ela era absoluta. Arwen era o infinito. Não sabia mais o que fazer, haveria alguma saída para seu sofrimento?
Impossível.
Desesperado, jogou-se novamente nas pedras, e de lá resolveu nascer de novo. "Olá", ele disse, "você está aí?". "Enfim", ela respondeu ao virar a cabeça e encará-lo, "Enfim estou".
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