segunda-feira, 20 de outubro de 2014

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

95ºF


O céu amanhece cinza, um cinza medonho de um calor incalculável. A cidade vazia, era deserto. Um passo após o outro chegava a lugar algum, não tinha destino, o horizonte incerto.

Me disseram que estava pegando fogo, mas tudo era chama, não dei atenção. A medida em que o tempo escorria pelas minhas têmporas, percebi que ele evaporava. Sua partícula erguia-se ao céu e buscava a misericórdia de deus. Ele virou as costas para nós.

Só então vi que a chama se tornava fogo e meu corpo tencionava juntar-se ao vapor do tempo. Suplicava a deus, o deus do silêncio, almejava sua misericórdia - ao menos o céu deveria estar frio. Mas não subi como precisava, me liquefiz e ardi no chão tão quente quanto os óleos de feira.

Refleti os pássaros voando e as nuvens. De alguma forma os céus também estava em mim. Não tardei a secar e dali tudo se foi comigo. Só restou no chão a mancha de meu antigo corpo-lágrima e as pessoas seguiram seus caminhos, passando por cima de minha memória.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Virou Notícia

- Boa noite, meu bem!
- Boa noite.
- Então, como foi a reunião? O que seu chefe disse?
- "Em reunião extraordinária, chefe indica corte no corpo de funcionários da empresa".
- Meu deus! O que isso quer dizer?
- "Nesta terça-feira (14/10), chefe de empresa surpreende funcionários ao indicar possibilidade de cortes. Setores mais afetados pretendem organizar ação sindical contra a empresa".
- Que? Não entendi muito bem... Você entrou no sindicato?
- "Membros do sindicato planejam protesto contra chefe de multinacional - 'o que estão fazendo com a gente é crime'".
- Roberto, você está meio esquisito hoje. O que está acontecendo? Me explica direitinho o que aconteceu!
- "Ameaça de demissão gera estresse em trabalhadores."
- Roberto, estou falando sério, você está se sentindo bem, quer que eu ligue para um médico, psicólogo, alguém?
- "Familiares se preocupam com trabalhadores ameaçados pelo fantasma do desemprego nesta terça-feira (14/10)"
- Roberto, Roberto, presta atenção, olha pra mim, me responde, o que está acontecendo? O que seu chefe disse direitinho?
- "Estou tranquilo com a minha decisão, infelizmente a crise não nos permite outra saída, diz Erasmo, 56 anos, presidente de multinacional"
- ROBERTO! PARA COM ISSO! ME EXPLICA LOGO O QUE ACONTECEU!
- "Para saber tudo que anda acontecendo, se torne assinante hoje!"
- PUTA QUE PARIU, ROBERTO! Que PORRA é essa de assinante? Você está maluco?
- "Familiares denunciam histórico de condições insalubres no ambiente de trabalho, processo pode ser aberto contra a direção de multinacional"
- Eu desisto, Roberto. Eu desisto. Está impossível conversar com você.
- "Dificuldades nos relacionamentos? Envie 4004 para nosso número e conheça as pessoas mais interessantes da sua cidade!"
-... Roberto?
- "Show de Roberto Carlos cancelado gera indignação em fãs de Santa Catarina"
- Amor? - irrompe em lágrimas
- ...
- Amor? - se surpreende
- ...
- Amor? 
Dormiram em silêncio, de frente um pro outro.


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Saudações, sei que já nos vimos antes.


Pois bem, e não era que eu caminhava tranquilo, sob o sol do fim da manhã? Eis que me surge no horizonte, anunciado por uma breve lufada de vento (naquele momento já sabia, mas me fiz de desentendido) - o que poderia ser? O vulto se agigantava, era como ver os astros nascendo, soaring

Sim, sim, sim, quanto mais a imagem se formava mais eu suspeitava (o coração já batia mais forte muito antes, já tinha certeza) - afinal, o que era aquilo que se anunciava? O vulto crescia, surgia, era volúpia, folhas ao vento num rodamoinho pueril em outubro, aloof?

Mas não! O vulto se aproximava, chegava a passos largos e lentos e mistos de dança e desfile, veio o estalo quando reconheci seu caminhar (já sabia desde antes, senti o cheiro à distância) - e não era que você vinha até mim? Chegou, sorrindo, e não pude compreender mais nada do que se passava ali, o lugar era outro e agora só sei onde estás.

I've got you under my skin.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Vasos

Minhas metáforas se tornam mais densas.

É como estar aos poucos concretizando
meus vazios comunicantes.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Genesis 3:19

Haveria de ter, em mim, o que ao menos refreasse a poeira que me torno? 

Soube, outrora, tudo que seria dizer-te, mas as palavras sedimentaram em meu peito, grudadas ali como                                                                                              [as miríades, as eras venenosas dali não saem.

Antes fossem nós na garganta, desatáveis pela fumaça do cigarro. Antes fossem nós 
nós dois, nós mesmo, nós moscados.

Sirvo-me ao fim do molho, como toque de especiaria - serias meu corpo indispensável? Indivisível?

À ferro e fogo marco o sangue, órgão meu mais sólido, que daqui se eriça cada vez                                                                                                   [que teus lábios finos tocam meu pescoço

Meu olhos, botões pregados no pano, nada ferem daquilo que não vêem,
as lágrimas, bijuterias nascidas dos diamantes pêlos d'alma
na alva manhã refletem teus olhos de anjo.

quando vens?
quando fostes?
Nada.
Nada no perfume que exalam as narinas

da fonte
seja a folha,
do licor
seja pó

quando sedes, 
seja amante,
se deitar-te
sede a sós.

Muito é pouco para tanto corpo
e opus do solstício
é ir tornar-me
pó.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Musgo


O caminhar sôfrego não refletia seu estado de espírito. Estava bem. Assim como o suave dispensar do sentido não era indício do seu mal-estar: estava angustiado. Era impressionante poder ver o musgo crescendo nas cascas das árvores e até num pedaço de chão. Tocar o aveludado fungo verde era como fazer carinho numa fera - talvez o musgo crescesse em si mesmo, talvez ele fosse um musgo apenas esperando para eclodir como tal. Mas seu olhar apaixonado ao tapete verde natural persistia diante das incertezas da sua própria matéria.

O vento farfalhava em seu ouvido, lento, o frio acariciava o seu rosto e lhe fazia pensar naqueles bons momentos de candura junto dela. A marcha o levava adiante, sabendo que ia de encontro ao seu passado, qualquer dia desses. Por que a textura das coisas o fascinava tanto? Era sempre assim, estar parado nalgum canto era seguido de um constante investigar de corpos - qual era a sensação da parede, qual era a sensação da calça, qual era a sensação das plantas.

O grande problema era que ele nunca havia sentido a textura da fumaça - céus, como aquilo o indignava. Já havia tocado muita coisa, de mulheres à flores, de bichos à torres. Mas a maldita fumaça, diabo, essa sempre escapava. Ele sabia que tocar as coisas era estar vivo - afinal de contas: sinto, logo existo. A fumaça era sua morte.

Como quem precisa toda hora se lembrar de que está vivo, ele se apaixonou por aquilo que lhe dizia: morte. O que ele queria mesmo era ir com a fumaça, virar pó.

Olhou ao seu redor, sentiu vontade de espirrar.
Sentiu vontade.
É.
Estava vivo.