E desce quente
o quanto for
pela minha garganta.
E desce firme,
gelada dor,
pelo meu corpo.
E desde sempre
, desde que me lembro
, desde que me desmembro,
as coisas são meio assim.
Assim como?
assim,
sem [ ]
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
A Burocracia de um Assalto
- Olá, o que o senhor deseja?
- TODO MUNDO QUIETO ISSO AQUI É... um... assalto... Eu tenho uma arma!
Ele brandiu a arma pra cima, mas parece que os frequentadores do café não estavam prestando muita atenção naquilo, as conversas continuavam, as risadas, o barulho de talher e até mesmo a porra do sorriso da mulher no caixa.
- Mas que porra é essa? EU ESTOU ARMADO! Você não tá vendo não? - perguntou ele meio anestesiado para a caixa.
- Sim, senhor, pelo que eu entendi você gostaria de realizar um assalto, está correto?
- É óbvio! Eu estava gritando isso agora a pouco!
- Muito bem, o senhor conhece as opções da casa?
- Opções...?
- Sim, senhor, nós possuímos o assalto regular, que pode vir no tamanho pequeno, médio ou grande, temos o assalto simples, que é só da caixa registradora, temos os combos, que aí o senhor pode escolher alguns frequentadores pra poder roubar os pertences também.
- Não estou entendendo. - ele realmente estava perdido.
- Como o senhor está armado, recomendo o nosso novo assalto que tem feito muito sucesso, que é o assalto relâmpago à mão armada. Por apenas 500 reais você pode levar até 1000 reais direto da nossa caixa registradora!
- Pera aí, você tá maluca? Você tá dizendo que eu preciso pagar para poder te assaltar, EU TENHO UMA ARMA!
- Temos também a opção do assalto demorado a mão armada, que é um escolha mais sábia, tenho de concordar com o senhor. Por 700 reais você pode pegar até 5000 do caixa, que talvez seja nossa melhor oferta para você.
- Olha, mulher... Joana - é isso que tá escrito no crachá? Olha, Joana, eu preciso te falar uma coisa. Eu não venho assaltar os lugares carregado com 500, 700 reais. Se eu tivesse essa grana eu não estaria assaltando!
- Nós compreendemos, senhor. Se você puder preencher este formulário aqui, nós lhe daremos os 5000 reais agora e você pode pagar a taxa de 700 reais em até 4 vezes sem juros.
Neste momento, o ladrão que estava a beira de um colapso nervoso, resolveu avaliar suas opções. Pediu uma cópia do formulário e se afastou da direção do caixa, alguns clientes estavam impacientes para fazerem pedidos ou pagar a conta e este homem estava atrasando a todos. As informações eram simples - nome, endereço, idade, essas coisas. Ele preencheu seus dados e retornou ao caixa.
- Com licença, Joana, tá aqui, tudo prontinho.
- Senhor, aparentemente você esqueceu de registrar os números relativos à sua carteira de trabalho.
-Ah, sabe como é, comecei a roubar desde cedo então nunca nem me preocupei a ter uma carteira de trabalho, por isso deixei em branco.
- Senhor, aguarde só um instante, tudo bem?
- Claro! - ele estava realmente animado.
Alguns minutos depois um policial entra pela porta e se dirige até o caixa. Nosso colega ladrão fica preocupado, mas pelo menos sua arma estava guardada na sua calça. O policial se dirige tranquilamente até Joana, nossa colega caixa e pergunta:
- Foi aqui que teve um problema de assalto?
- Sim, infelizmente aquele senhor tentou cometer um ato ilícito. - apontou para o ladrão que agora puto sacou sua arma, o que mais uma vez pareceu não afetar ninguém.
- Você me enganou! Você falou que eu sairia daqui com 5000 reais e sem mais problemas!
- E sairia tranquilamente se não tivesse tentado cometer um delito, meu jovem - era o policial quem falava agora, sua voz era firme e de fato ele não parecia dar nenhuma atenção à arma.
- Como assim - delito? O assalto não era um delito?
- Senhor, você está familiar com a nova lei de furtos e assaltos aqui do estado?
- Lei do assalto? Lei do assalto é que foi pego se fudeu, né não?
- Senhor, a nova lei do assalto visa melhor atender a grande parcela de nossa população que se arrisca todos os dias assaltando para poder sobreviver ou enriquecer inescrupulosamente. A lei prediz que todo e qualquer assalto pode ser feito por um assaltante profissional registrado junto do sindicato de sua região. É importante também sempre lembrar de apresentar o recibo na hora de assaltar alguém, para que essa pessoa possa declarar no seu imposto de renda e o senhor também tenha os benefícios de ser um contribuinte.
- Tá maluco? Imposto de renda? Que porra é essa que tá acontecendo? Eu vou embora.
- Senhor, algum assalto, roubo ou furto foi cometido pelo senhor nos últimos tempos? - falou o policial impedindo a saída do nosso colega.
- O que o senhor está insinuando, hein??
- Ele me disse que assalta desde sempre e por isso não tem carteira assinada. - falou Joana com voz temerosa, nervosa, quase histérica.
- Senhor, receio que vá ter que prender o senhor. Você estava praticando ilegalmente a profissão de assaltante, além de suspeitar que o senhor está sonegando imposto de renda - esses crimes são graves, você pode ter certeza que vai passar muito tempo na cadeia.
Nosso colega estava oficialmente perdido, mas ainda tentava argumentar com o policial, que no final das contas parecia ser gente boa.
- Mas olha só, eu não estava familiarizado com essas coisas, sabe seu guarda? Se eu soubesse eu juro que teria feito diferente, você tem que acreditar. É que sabe, a gente não pensa que vai precisar de tanto, né? Daqui a pouco vou até ter que fazer faculdade pra essas coisas! - disse nosso colega rindo, tentando quebrar o clima.
- Você nunca teve a chance de fazer uma faculdade?
- Não, claro que não, se não eu poderia fazer até outra coisa! - nosso colega estava confiante.
- Seu espertinho! Você estava quase fazendo com que eu cedesse, mas agora eu percebo com quem eu estou lidando - fazendo tudo que fez e não tem UM DIPLOMA DE GRADUAÇÃO? O senhor deveria estar envergonhado de tentar me enganar desse jeito, todo mundo sabe hoje em dia que em 2 anos você pega um técnico de assalto e pode entrar no mercado negro de trabalho. Seu pilantra de merda - disse o policial abaixando nosso colega pela cabeça e enfiando na parte de trás do camburão - você tem o direito de permanecer....
Sem título
Tomo,
das tuas mão
o quadro que eu pintei.
Rogo
o teu perdão
Das feridas que causei.
Peço que me escute,
ouça,
quero que me leve, logo ali
no meu lugar.
Sim, eu sei, não
pode
me levar.
Verei, então
até onde vou,
sangrar
.
Se o sangue
escorre, eu
escorro junto?
Se eu não desisto,
eu existo ou
minto?
As vezes minto.
As vezes sinto.
As vezes.
das tuas mão
o quadro que eu pintei.
Rogo
o teu perdão
Das feridas que causei.
Peço que me escute,
ouça,
quero que me leve, logo ali
no meu lugar.
Sim, eu sei, não
pode
me levar.
Verei, então
até onde vou,
sangrar
.
Se o sangue
escorre, eu
escorro junto?
Se eu não desisto,
eu existo ou
minto?
As vezes minto.
As vezes sinto.
As vezes.
Wind of Change
Onde estavam as palavras que fugiram daqui por um ano?
Um amigo veio me perguntar se eu havia abandonado o blog, pois não havia postado desde o ano passado. O que mais me surpreendeu foi que havia um ano que eu havia postado algo e eu ainda me lembrava como se fosse ontem, do último poema que postei aqui. Lembro do dia, lembro da inspiração, lembro de detalhes que surgiram no momento e foram se unindo ao celular de penúltima geração.
Gostei muito de escrever aquele poema. Fico me perguntando qual vai ser o próximo. Quer dizer, escrevi um ou outro, nesses últimos tempos, mas nada que eu achasse legal pra valer. Vira e mexe eu sinto uma urgência de escrever, mas desde que este blog começou, parece que cada vez mais o que eu ia escrevendo ia se tornando mais íntimo e precisava se voltar para dentro.
Comecei uma espécie de diário, que não escrevo todo dia, mas que serve pra guardar algumas reflexões pessoais.
O que me deixa pensando que talvez esse blog poderia dar uma guinada par ao lado mais criativo das coisas e menos intelectual/reflexivo. Por que não escrever algumas bobagens? Pequenos contos, poesias, poemas, blá blá blemas. Tenho talvez uma idéia de uma história mais a longo prazo postada em partes aqui. Vamos ver o que acontece =)
Só espero que aconteça.
André.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Celular de penúltima geração
Vejo a brasa vermelha
de meu cigarro e penso
"Oh, isso poderia ser
a lanterna traseira de um
carro"
Pego meu velho
caderno com a capa
arrasada
puída
"ele poderia ser novo", eu penso
Com minhas mãos
trêmulas pego
meu celular de
penúltima geração
com acesso à internet que
me deixa
conectado com o
mundo
Mas me deixa só (,)
pensando que
não tenho conexão
não de verdade
com o mundo
E que sonhos nunca são realidade
mas que a realidade foi
um sonho
e será de novo
assim que outro sonho
deixe de ser
e a realidade se
entorne
em sonhos de como
foi o passado
E a gravidade do
futuro
enterre os sonhos
no chão, para que eu tenha
aonde pisar
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Violência
Cheiro.
Flor.
Vou andando
descalço
pelo jardim de rosas da minha
mente.
Vou cheirando as rosas e sinto cheiro de
margaridas,
violeta,
violentas violetas.
Cor.
Flor.
Pé, passo, sol forte no meu
rosto.
Sou forçado a olhar pro chão macio e
aveludado
de violetas,
violentas violetas.
Violão.
Som.
Numa sombrinha de uma árvore eu me recosto e recordo daquele
tempo
que não gosta muito de passar.
Tempo que me ataca e me fere, como
violetas.
Violentas violetas.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Diálogo Cego
A música silenciosa das nossas palavras.
Ali do lado, bem ali do lado, um café com letreiro em alto relevo, discos de vinil e pinguins decorativos. Ali do lado, também, uma vela sem barco trêmula, esvoaçante, embalada pelo vento da Asa Norte.
Eu amo a luxúria do teu suor pingando no meu corpo nu. E bendito é teu nome dentre meus versos, bendito é o fruto do nosso ventre, minha luz.
Adornos praianos, rústicos, encavados. Caras, bocas, sorrisos, caretas, braços. Uma flâmula vermelha. "Salva-vidas" Um porto seguro, quem sabe, no meio do mar de asfalto?
Então vejo seu corpo dourado, prensado numa parede pichada, sem cabeça, sem braços, sem abraços nem mágoas. Por que de perto, ninguém é normal, que todos deixam de ser só mais um e passas a ser um só.
As bitucas de cigarro já apagadas. Essa fumaça que saia da sua boca... era da nicotina ou do calor de macios cabelos loiros?
Não sei, só sei que tenho de fazer posições impossíveis em meios de transporte enferrujados. E mesmo assim a vida anda, impassível, completamente alheia às forças da natureza, encaixando imperfeitamente no poder de nossas escolhas.
Engraçados como suas frases ficaram mais longas depois da primeira leitura. A gente sempre fala mais do que sabe mais. Então eu vou mudar o assunto, vamos ver o quanto o tom se mantém em um novo assunto. Um dois três, já! Eu não gosto de maionese no pão.
Das destrezas das dúvidas direto dos dados dicótones dessa dana vida, aos dias dois-em-dois das definições definitivas. Não é mesmo?
É que eu não acho que acidez combine com quentura. Perde-se o ardidinho da maionese, perde-se o gostinho de manhã-fria-que-ficou-amena-depois-do-café do pão, perde-se tudo. Ao que é corrosivo, o que deve ser corroído; ao que é suave o que dever ser suavizados. Certeza que o Moçoila deve curtir pão com maionese.
Deu-se um tiro no escuro e acertou-se em cheio a poesia.
André e Amanda
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