quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Teoria das cores

Quem teme
treme?
Amarela
Amarela
Amar ela
Amarelo
amar o elo que existe
entre
nós-dois
nos dois
nos dedos,
os nós dos dedos
os nós do medo.

Quem treme
teme?
Três
Quatro
Cinco
Seis...
Qual o número da vez?
Zero,
Um, dois ou
Três?
Eis
Eis: certeza!
Eis: dúvida!

Eis intensa
Existência.

Amar ela
Amarela
Ao mar,
ela.
No mais,
ela.
No mas,
ela.

Sim,
ela,
singela
Sem
ela
Com ela.
Cadê ela?
              [cadela]

Sim, gela
até a ex-
pinha,
essa vida tão
zinha,
só zinha.
sozinha.
Só sina
De baixo a
cima.
rima,
rima.
Angústia,
             menina

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Deszelo das calotas polares

Quem zela,
com tanto
zelo,
aquilo que nos é mais
importante?

O zelador
zela a dor,
zela dois; zela nós dois
zelador?

E tudo aquilo que é
zelado
uma hora derrete.

Zela,
zelador.
(Con)zela,
(con)zelador.
Com ela,
com ela é dor.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Confissão em Em

Eu não sou um poeta.
Esta não é uma poesia.

É tudo fachada e
Eu sou uma grande mentira.

E essa é a minha pequena verdade.
Essa é minha triste alegria.

domingo, 24 de novembro de 2013

Literário

Ela me disse, mesmo que não fosse
para mim
que ela estava dizendo:

"Você precisa começar a
correr
pra sair do
Literário."

Eu literalmente não soube o que
responder.
Então não respondi.

Corri para o Literário e perguntei:
"O que eu posso fazer
para fugir
de você?"

Então, como não obtive resposta:
literei.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Ligação.

Fizeram uma espécie de varal com um barbante. No lugar das roupas haviam folhas de papel com mensagens variadas. Algumas se podia ler do banco que ficava a uns 7 metros de distância. Para outras seria preciso se aproximar. As folhas balançavam suavemente em resposta ao carinho que a brisa lhes fazia.

Sentado, ali, a brisa levava o cheiro da cidade e do vazio da universidade até mim. Seu leve roçar tranquilizava minha pele e refrescava os meus sentidos. Era um dia bonito, leve. Acendi um cigarro e ascendi a um ponto onde pouca coisa realmente importa.

Observei um homem se aproximar das folhas esvoaçantes para ler suas mensagens. Soube, pelo seu olhar, que ele não queria ler as palavras que ali estavam. Lia por que ele devia. Devia encontrar algo concreto no vazio abstrato da sua espera.

Com muita certeza afirmo: ele esperava por algo. Com a mesma certeza, duvido. Quem era eu para dizer algo? O homem era um desconhecido. Mas será que não vi seus olhos brilharem por um segundo fugaz, refletindo minha própria inquietude?

A verdade é que eu, ali, esperava. Esperava por algo ou alguém que me tirasse do silêncio.

O mais engraçado é que naquele momento eu recebi uma ligação. Então eu falei. Mas ainda assim, ali, permaneceu 
o
silêncio.

domingo, 17 de novembro de 2013

O corpo

A sacola de plástico me diz assim:
"Hey, I'm green!"

Mas o corpo nunca mente.
Seu corpo era transparente.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Und land nur die lacherlich eisamkeit

Quando eu era uma criança,
eu tinha medo do seu toque.
Achei que talvez fosse o único toque que eu
teria, ao longo da minha vida.
Esse foi nosso primeiro encontro.

O tempo passou junto com os
passos que eu pude dar.
Um dia senti outro toque que não o seu,
um toque que eu queria ao longo da minha vida.
Mas esse não foi nosso desencontro.

Depois desse, outros toques vieram.
Outros sentidos vieram,
mas você sempre arranjou um jeito de se fazer
presente, ao longo da minha vida.
Talvez precisássemos de um encontro.

O pior é que nem sabia seu nome,
nunca quis sabê-lo.
Mas foi um dia de frente a um espelho velho que 
pude saber quem restaria ao longo da minha vida.
E encontrei-a ridícula, Solidão.

Por que jazias ali, no fundo dos meus olhos?
Então o seu toque é o meu próprio abraço?
Ninguém me separou de você até hoje e sei que não se
importa que eu tenha outras mulheres ao longo da minha vida,
Solidão. Posso ter te encontrado ridícula,

mas não a encontrei 
em vão.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

É preciso não sentir medo

É preciso não sentir medo.
É preciso, não? Sentir medo
é preciso. Não sentir. Medo.
É preciso não sentir? Medo
é preciso. Não? Sentir? Medo.

Preciso precisar-me:
Me preciso ao sentir medo.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Estive em duas cidades

Os meus pés caminharam.
As minhas pernas andaram.
O meu peito ecoou.
Os meus braços balançaram.

Os meus cabelos esvoaçaram.
Os meus olhos olharam.
A minha alma sonhou.
Os meus dedos tocaram.

Os meus medos viajaram.
Os meus pesos voaram.
O meu corpo ficou.
Os meus pelos eriçaram.

Os tempos pararam.
Os ares mudaram.
Agora, onde estou?
Estive em duas cidades e dois corpos se amaram.

Os corpos se amarram.
Os corações dançaram.
Algo restou.
Estive em duas cidades e os desejos, ali, despertaram.

domingo, 10 de novembro de 2013

A estátua

E ali estava, antes mesmo
de estar.
Bem ali está, onde não
deveria estar.

E assim, estando, está.
Está estátua,
esta estátua
não se move.

Mas sempre esteve e,
assim, estará.
Está em
estafa.

Resta a metáfora.
Este é o estatuto.
Aí está tudo(?).

sábado, 9 de novembro de 2013

Macarrão

Peguei minha comida com as
mãos.

Mas fiquei em
dúvida.
Eu sujei com minhas mãos a minha comida?
Ou foi a comida que sujou os meus dedos?

Talvez ninguém tenha sujado ninguém.
Talvez nós tenhamos sido feitos para estar assim
juntos,
misturados,
lambusados um do outro.



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Quá

Minto.
Mato.
Morto.
Porto.
Tropo.
Pronto.
Pronto, proto.
Minto, morto.
Sinto, sorto.
Cinto, soco.
Bato, corro.
Socorro.
Minto, bato, sinto, morto.
Pinto.
Pato.
Pinto, porco.
Pinto, pato, pinto, porco.
Pinto, pato, minto, porco.
Pinto, pato, pato, pinto, pinto, porco, pinto, morro.
Pinto, pato, pato um pinto, mato o porco.
Pato, pinto, porco, mato, pinto, porco.
Pinto, pato, pato, pinto, pinto, pato, pato, pinto.
Pinto um pato!

E o pato me diz quem sou.
Quá.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A bola e a luneta

Noite. Escuro. Meus pés caminharam até um breve barranco, meu corpo resolveu acompanhar-los. Era uma grama mal cuidada, um pouco bagunçada, assim como meus cabelos. Era um campo de futebol em 45 graus, que se estendia até o céu, ou pelo menos tentava. Ali estava uma criança, apenas de bermuda, enquanto eu estava de calça, sapato, blusa e casaco. A criança era marrom de sujeira, pobre, humilde e eu simplesmente soube que ali nas suas pernas e braços magros de fome caminhavam as riquezas do mundo.

Ele tinha uma bola, azul desbotado, de plástico. Me aproximei, queria jogar com ele, queria ser importante para ele, queria ser um herói, o bom samaritano. Ele deixou com que eu me aproximasse, eu estava na parte de cima do barranco, apesar de ter partido de baixo. Tentei pegar a bola com meus pés, meus sapatos estavam brevemente molhados por alguma espécie de orvalho que existiu naquela grama, naquela noite. Quando meus pés tocaram a bola, as leis da gravidade surtiram efeito nela, ela começou a descer o barranco. Tentei segurá-la, estava sentado no chão, minhas mãos tocavam a grama. Havia chovido.

No desespero de tentar recuperar a bola, eu e o menino nos chocamos. Ele me deu seu rosto, eu lhe dei meu pé direito. Foi com uma espécie de força carinhosa que nosso choque físico ocorreu. Me senti mal, fui falar com ele e sabia -ele falava espanhol e eu não. Perguntei como que em um balbuceio: duele? Ele me levantou seu rosto, marcado por lágrimas e com catarro escorrendo de seu nariz. Catarro no lugar de sangue, água e resíduos no lugar da dor. Me deparei com o rosto do pequeno garoto, devia ter seus 10 anos, mas seu olhar o traía - aqueles olhos haviam presenciado a criação. Seu olhar de infância se misturava com o de um ancião e me diziam que não havia mal algum ali.

A bola correu sozinha em nossa direção, estava tudo certo agora. Peguei com o meu pé, ainda estava no chão, virei meu corpo e fiz um gol. Ri, tinha feito uma travessura. Uma menino não riu, mas ele estava feliz com meu gol, podia sentir. A bola resolveu que queria fugir, fugir pela noite e pelas calçadas amarelas quadriculadas de tijolinhos da noite. Fui buscá-la, estava curioso com seu destino. O menino me seguiu. Ele estava ali para me buscar, caso a bola me enganasse e eu me perdesse. Fomos longe, mas alcançamos a bola, sim, capturamos ela. Eu pensei com meus botões, vou arremassar a bola e ele verá o quão longe eu posso arremessar essa bola. Queria vê-lo correr, queria vê-lo sorrir, queria vê-lo feliz. Aquilo era a vida e nada mais poderia ser.

Eu o disse, corra de volta para o campo, vou jogar a bola. Eu sabia que apesar da distância eu jogaria a bola até o meio do campo inclinado, no exato centro do barranco. O menino me olhou com astúcia e resolveu que o que deveria fazer era uma travessura, a sua travessura. Subiu uma árvore, uma árvore alta que subia mais alto que a maior torre do castelo. Ali no alto, ele encontrou uma luneta, bela, de prata com detalhes em madeira. Entendi, ele queria me ver jogar a bola e vê-la rasgando o céu, como uma estrela cadente. Ele queria o seu desejo que lhe era de direito.

E, apesar da altura da árvore e dos meus pés nos chão, ele me olhou, com um sorriso taciturno e impregnado de ousadia. E naquele momento, nos olhamos no mesmo nível, como iguais, balanceados, equivalentes. Éramos cúmplices do mesmo destino, eramos os palhaços do mesmo sorriso - éramos os donos, eu do destino da bola e ele do destino da luneta.

Arremessei a bola e tudo que restou foi a escuridão eterna dos sonhos.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Ainda?

Eu sou um pedaço de
chocolate
mordido e chupado por
uma criança sem dentes.

Abandonado no chão, com
pelos, cabelos,
poeira e
algumas formigas mortas.

Eu sou uma unha preta e
podre
que cai do pé de um
homem com
furúnculos e pus escorrendo
entre os
dedos.

[você ainda me ama?]
[você ainda me quer?]

A-lô, ... me escutando?

Te escuto durante o silêncio da noite. Te escuto nas batidas, no pulsar do meu peito. Te escuto nos carros e no barulho das folhas das árvores. Te escuto nos sonhos e no gorjeio dos pássaros. Te escuto no caminhar das aranhas. Te escuto no chocalho de uma cobra. Te escuto no barulho de pratos quebrados e no som de abraços vorazes. Te escuto de dia, te escuto a tarde, te escuto hoje. Te escuto depois. Te escuto antes. Te escuto sorrindo, te escuto dormindo. Te escuto no barulho de talheres no prato. Te escuto no murmurinho do restaurante, no ressoar de uma multidão. Te escuto no zumbido das moscas e no latido dos cães. Te escuto no pulo do gato. Te escuto num trago. Te escuto no rabiscar de um lápis. Te escuto no digitar de um poema.

Te escuto antes, durante e depois.

E ... te am... a...o...a...


sábado, 2 de novembro de 2013

Danza

Je ne fait pas de sport,
Je joue le jeux des mots.
Je parle, j'écoute, j'écris.
C'est tout.

Y incluso cambiando de
idioma
No me puedo cambiar a
mí mismo.
Yo soy eso y yo hablo.

Afterall, words are only
words
and nothing less.
So, why bother?

Se falo, movo minha
língua,
independente do que digo.

Minha língua dança
nas línguas.

A minha dança com
a sua.

Y así danzamos él todo.