segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O Natimorto

Para meu irmão

o corredor de chão
marrom, gasto
mas limpo.

o banco do hospital de frente
à uma porta dupla,
com um pequeno espaço para se observar
o corredor
adentro.

Meu Pai com olhar preocupado,
barba por fazer,
já havia ali o fio branco?

a notícia do nascimento da
morte.
a visita ao quarto,
os panos brancos
a mãe branca,
morta também
apenas em seu olhar.

o berço de plástico com a figura,
pálida,
em eterno silêncio.

o choro inaudível misturado com os sons
da madrugada,
da noite calada,
das estrelas frias e indiferentes.

esta é a minha forma de estar do
seu lado.
a cada dia,
a cada minuto,
desde que você nunca veio.
você nunca mais se
foi.

lembra das lágrimas que eu dediquei à você?
hoje não choro mais,
só atingem lugar aqueles
enormes vazios que se encontram no peito,
no âmago de um seio
que nunca deu de mamar,
não daquela vez,
não para aquela criança.

o filho que escolheu se libertar cedo demais,
o irmão natimorto,
as memórias falsas,
o ríspido
aborto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário