sábado, 15 de fevereiro de 2014

Sujo

As gotas de chuva vieram dar seu parecer sobre o assunto.
Fui obrigado a concordar, 
afinal elas tem um smooth talk
que é difícil de resistir. 

Penso se a terra sente 
as gotas da chuva como
minha pele sente 
as gotas do chuveiro. 
Talvez seja tolice 
pensar que o chão precise de um banho assim como eu. 
Ele não é tão sujo.
O que está encardido é
a alma.

O fundo dos meus olhos é preto, no espelho.
Onde está o brilho?
Atrás da barba,
atrás do cabelo,
atrás da covardia.

é puro desespero.
é desassossego.
é tudo que me falta:

amar o medo.

Sem hora

Foi como uma bomba.
Uh.
A blitzkrieg mandou lembranças,
devastadora foi sua passagem.

A tesoura rasga minha carne.
audacioso digo:
não demora.
não demora.
não tem hora,
chove agora,
vem e chora.
ora, ora,
ora, bolas.

te peguei no pulo do gato.
mas segredo:
prefiro os ratos.
a escória.
tão boba nossa história.
que glória!

e a chuva?
a chuva demora
me olha

me molha
agora.
senhora,
me devora?

sem hora.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O Natimorto

Para meu irmão

o corredor de chão
marrom, gasto
mas limpo.

o banco do hospital de frente
à uma porta dupla,
com um pequeno espaço para se observar
o corredor
adentro.

Meu Pai com olhar preocupado,
barba por fazer,
já havia ali o fio branco?

a notícia do nascimento da
morte.
a visita ao quarto,
os panos brancos
a mãe branca,
morta também
apenas em seu olhar.

o berço de plástico com a figura,
pálida,
em eterno silêncio.

o choro inaudível misturado com os sons
da madrugada,
da noite calada,
das estrelas frias e indiferentes.

esta é a minha forma de estar do
seu lado.
a cada dia,
a cada minuto,
desde que você nunca veio.
você nunca mais se
foi.

lembra das lágrimas que eu dediquei à você?
hoje não choro mais,
só atingem lugar aqueles
enormes vazios que se encontram no peito,
no âmago de um seio
que nunca deu de mamar,
não daquela vez,
não para aquela criança.

o filho que escolheu se libertar cedo demais,
o irmão natimorto,
as memórias falsas,
o ríspido
aborto.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Ela limpou o armário antes de sair de casa

"Eu vou embora"
"Ah é?"
"E eu vou com as suas
meias"

Ela limpou o armário
antes de sair de casa.
Levou as
meias.

Me deixou aqui,
inteiramente sozinho,
no infinito
na sorte.

As luzes da cidade.
Reflexo.
O vidro embaçado de um carro que
não se move.
Esvaziado de mim.

Ela limpou o armário
antes de sair de casa.
Levou minhas
meias
e nada mais.

sábado, 25 de janeiro de 2014

O2

Olha lá!
é o desfile dos detalhes
passando.

Serei eu
um sopro ridículo
a estar lhes
olhando?

por que não me olham de volta?
serei eu um entalhe?
uma marca amorfa de
solda?
um coelho que nunca saiu da cartola?

repare.
o desfile passou.
e foi onde tanto pensei
que tudo acabou.

deus
oh, deus

e quando foi que tudo
começou?






O chamado da mancha.

A barra pisca.
Esperando minhas palavras.
É o incômodo dizer:
vamos lá. escreva. sinta.

Olho para a barra piscando,
a folha em branco já está manchada.
meus olhos já estão manchados.
minha vida já está manchada.

escreva isso em prosa.
escreva isso em poesia.
foda-se.
enfia sua norma no cu.

o oceano não é limpo.
o ar não é limpo.
o céu tem nuvens.
no chão há bitucas
de cigarro.

no meio tempo,
a gente ama.

e a barra chama.